A testemunha, e o testemunho, de Ernesto Sabato

Estou a percorrer os corredores da biblioteca (3o pavimento; Área D; Estante 39) quando o Ernesto Sabato me olha. O fantasma do Ernesto Sabato. Ele está num escritório em preto e branco, com mesa de tampo de vidro, daqueles tampos nos quais por baixo se colocam papéis importantes, fotos da mulher amada, o escudo do time. O sol entra pela janela, a luz solar é perceptível, reflete quadriculada, em quadrados grandes, na parede. Lá fora está Buenos Aires, suponho. Um telefone antigo, de discar. Um cinzeiro. Ali é o escritório do escritor, eu sei, dá para sentir. Na parede, um calendário, talvez 1956, fotos, um diploma provavelmente. E uma placa com alguns dizeres que não consigo ler.

O Ernesto Sabato, o fantasma dele, o livro dele, O escritor e seus fantasmas, me olham; e não estou mais na biblioteca. Estou dentro do livro, na página, no trecho intitulado “A testemunha”:

"A grande maioria escreve porque busca fama e dinheiro, por distração, porque simplesmente tem facilidade, por que não resiste à vaidade de ver seu nome em letras de forma. Restam, então, os poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de dar testemunho de seu drama, de sua infelicidade, de sua solidão. São as testemunhas, isto é, os mártires de uma época. São homens que não escrevem com facilidade, mas com dilaceramento. São indivíduos na contramão, terroristas ou fora-da-lei".


4 comentários:

  1. Parabéns pelo blog!
    Compartilhei esse texto em minha fan page no facebook, espero que não se incomode, achei muito boa a seleção e percepção. (não que minha opinião valha lá de alguma coisa...)
    se quiser conferir: facebook.com/paes.clarice
    Continuarei visitanto!

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    1. Clarice, obrigado por compartilhar. Fico bem feliz com esse retorno, faz essa vã luta contra as palavras ("Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco.")ganhar mais sentido.

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  2. Vim através da fanpage da Clarice Paes ,e a dica dela foi ótima.O texto traduz o que sinto ao escrever ,gostei muito!

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    1. Laila, que bom que não estamos sozinhos neste sentimento sobre a escritra. A resposta para a Clarice é para você também!

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