As pedras no bolso de V.

Podemos imaginar que às vezes ela caminhava pelas margens do rio Ouse, no norte da Inglaterra, e de quando em vez olhava as pedras.

Podemos dizer que às vezes, muitas vezes, o mundo lhe pesava, caía sobre ela; a vida era uma grande pedra.

No último bilhete – em 28 de março de 1941 –, agradeceu ao marido por todo o amor que lhe dedicara. Porém tinha certeza de estar ficando louca novamente. Sentia que não conseguiriam passar por novos tempos difíceis. E não queria revivê-los. Começava a escutar vozes e não conseguia se concentrar. Portanto, estava fazendo o que parecia ser o melhor a se fazer. Então vestiu um casaco, cujos bolsos encheu com pedra. Caminhou até a margem do rio. Entrou na água (o casaco não a protegeria do frio das águas sempre geladas) e se deixou afundar.

Virginia Woolf tinha 59 anos. Era casada desde 1912 com Leonard Woolf, com quem fundou a pequena porém importante editora Hogarth Press. Além de contos, resenhas e críticas literárias, tinha escrito nove romances, entre eles Mrs. Dalloway, lançado em 1925, com o qual se afirmou como a grande mentora do movimento modernista e inovadora no uso da técnica do fluxo de consciência.

Por fim, devemos (mas talvez não possamos) evitar pensar naquele corpo carregado do peso da vida e vagando morto pelo rio. O corpo que vagou por mais de três semanas até ser encontrado em 20 de abril.


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