Identidade nacional

Devia apresentar o romance O falso mentiroso, de Silviano Santiago*. Aí, na sexta-feira de tardezinha, no centro do sétimo andar da biblioteca, o horizonte da cidade escorrendo nos vidros (chovia, não?), olhei nos olhos de meus companheiros – os cavaleiros da távola retangular – e disse:

Poderia falar do veio machadiano (Narrador em primeira pessoa, irônico, digressivo, descrente, que diz não ter querido filhos para não espalhar a sua miséria).

De o romance ser pós-modernista (Acondiciona-se com justeza em Poética do pós-modernismo, no qual Linda Hutcheon afirma que o pós-modernismo gerou novas possibilidades formais de criação, questionando os elementos estruturais da narrativa e relendo-os sob a ótica da ironia, da paródia, da metaficção, da intertextualidade, da fragmentação, do jogo de baixa e alta cultura).

Do narrador que faz questão de mostrar que sabe usar e brincar com os artifícios de contar uma história. 

Mas prefiro falar do Brasil.
Da ideia de país que se tira do livro.
O personagem principal foi comprado pelo pai e pela mãe.
Os falsos.
Compraram o Samuel bebê.
Do médico que fez o parto em outra.
Da enfermeira que negociou e foi levar a criança até a casa.
Esse pai falso prosperou na vida subornando.
Empresários, políticos, sanitaristas e quem mais houvesse e quisesse (e sempre alguém queria).
E assim.
A identidade nacional está corrompida.
Sempre foi? Ainda é?
Quem no livro se salva?

Talvez o Zé Macaco, o mais pobre da turma. O mais pobre da turma é negro (o que dizer de um negro chamado de Zé Macaco?). Ganha notoriedade na escola por ser habilidoso peidando. Toca melodias com seu cu. Acaba trabalhando no circo. Não de peidorreiro. De domador. O mais pobre vira atração de circo. Morre jovem (o pobre morre jovem) de AVC. Só a mãe e o narrador do livro vão ao enterro.

Lembro-me de uma música de um grupo de rock que nunca escutei.
Que país é esse?

* Aqui tem uma entrevista com o Silviano Santiago

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