O texto que abraça

Uma amiga disse que se sentiu abraçada pelo pequeno ensaio “Como atacar um contemporâneo”, da Virginia Woolf. Tive a mesma sensação ao ler o romance Cinzas do Norte, de Milton Hatoum.

Por quê?

Porque, e já tinha sentido isso em Dois irmãos, Milton Hatoum não está preso, aferrado, ao relativismo da pós-modernidade. Nem parece preocupado em realimentar seu niilismo. Ele não daqueles que pretendem “‘denunciar’ a mentira literária que finge ser verdade o que não é, como se o leitor fosse um eterno idiota a ser tutelado e levado pela mão por escritores que vão lhe ensinar o caminho da verdade verdadeira (veja bem, isto é só um personagem, não uma pessoa; perceba como a emoção é de papel; observe com isto não é um cachimbo)” (cito aqui o Cristovão Tezza no essencial O espírito da prosa – uma autobiografia literária).

Hatoum não busca narrar o inenarrável. Ele ousa narrar o narrável, costurar um texto não é ruína, não é rascunho, que constrói. Com palavras, parágrafos, frases, capítulos que se encaixam (a meu ver, mas tudo aqui é a meu ver, e talvez, provavelmente, seja uma questão de o que se espera da literatura) com perfeição. 

Causou-me forte impressão um texto do Hayden White lido há uns dois anos (Meta-História, suponho), na qual ele considera a estrutura do discurso narrativo em prosa como uma das características definidoras da espécie humana.

O livro de Milton Hatoum, de alguma forma, reaviva a minha esperança na literatura. De que as histórias não nos deixem esquecer quem somos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário