Quem tem medo de falar da guerrilha do Araguaia?

Entre os vários méritos de Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa, está o de provavelmente ser o primeiro romance a tratar da guerrilha do Araguaia. Como os arquivos oficiais continuam interditados para consultas, restam ainda muitas lacunas sobre esse movimento, do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, que pretendia derrubar a ditadura e instaurar o socialismo no Brasil.

Azul-corvo conta a jornada de Evangelina, a Vanja, uma adolescente de 13 anos. Após a morte da mãe, ela volta aos Estados Unidos, onde nasceu. Vai morar com Fernando, que, além de ex-marido de sua mãe, também é ex-guerrilheiro do Araguaia.

O livro intercala com habilidade a narrativa da amizade entre Vanja e Fernando e as lembranças da época em que ele fazia parte da guerrilha. Em certo trecho – na página 85 –, Vanja questiona Fernando sobre o motivo de ele ter entrado para o movimento. Ele devolve a pergunta: devem mesmo falar daquele assunto? Eis a resposta:

“Eu estava mesmo querendo falar daquele assunto. Muita gente não estava, era um assunto que ficava melhor fora da história oficial, mas a dúvida às vezes rói como um bicho. E ela roía, sim, uma pequena e paciente traça caminhando por entre letras, números e carimbos dos arquivos da guerrilha mantidos secretos pela Forças Armadas”.


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