Livros e lágrimas guardados por leões de pedra

Naquela biblioteca eu estive a sofrer; naquela biblioteca estive a chorar; não dentro daquela biblioteca, na escadaria, sentado em meio a vultos num vai-e-vem indiferente, claro, óbvio, o que eles tinham a ver com a minha dor, que nem era para ser tanta, só que eu era mais melodramático do que sou agora e olhe que agora sou bem melodramático, esse texto prova isso, não prova?, como também outros; 

feito o conto que tentei escrever sobre um homem que vai ao interior dos EUA visitar a família com a qual ele morou durante alguns meses uma década antes, quando era adolescente e fez intercâmbio estudantil. Chegando lá, ele liga para a mulher estadunidense pela qual tinha se apaixonado anos atrás e descobre que ela está morando em Nova Iorque. Marca um encontro, já iria para Nova Iorque mesmo, onde tomará o avião de volta ao Brasil; 

não, ele não consegue encontrar a mulher na Big Apple (aspa da mulher: Yeah, that’s it, I’m living right in the middle (talvez ela tenha dito: in the heart) of the Big Apple), ela não atende o telefone, o homem perambula pela cidade barulhenta e cheia de gente, caminha pela região onde ela disse que morava, perto da biblioteca, então se senta na escadaria encimada por dois leões de pedra e deixa as lágrimas surgirem, poucas e silenciosas, discretas, percebidas apenas pelos leões de pedra.

Consegui escrever o conto, faz tempo, e ele nunca será publicado, pelo menos do jeito que está, não presta; a experiência também me valeu uma matéria sobre a biblioteca, que saiu há quase dez anos num grande jornal. Reaproveitei, reeditei, e republiquei aqui.


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