Ainda sobre futebol: para aficionados

Na última sexta-feira, falei sobre literatura e futebol na PUCRS. Resolvi ir além dos brasileiros citados no post anterior deste blog, e pesquisei autores argentinos e uruguaios. Reli uma entrevista com o escritor Eduardo Sacheri na Revista Ñ (o suplemento cultural do jornal Clarín, que é vendido separadamente e é muito melhor do que o jornal). O Sacheri era professor de segundo grau quando publicou um livro de contos futebolísticos; alguns contos foram lidos no rádio por um jornalista especializado (o Alejandro Apo) e o escritor ganhou notoriedade. Depois ele publicaria o romance que deu origem (e faria o roteiro) ao filme O segredo de seus olhos. Mas, para mim, suas melhores produções são os contos de futebol. Pensando nisso, traduzi trechos da entrevista referentes ao assunto. 

Tem-se a impressão de que a literatura futebolística encontra sua melhor forma no conto, muito mais do que no romance. Você teria alguma razão para essa combinação entre futebol e relato breve?

Não estou seguro dos motivos. Talvez o conto, com sua brevidade, evite cair em certas redundâncias. O futebol, como experiência de jogo e como relato, abarca certas regularidades previsíveis. Talvez num romance haja o risco de se sobrecarregar esses aspectos previsíveis. E no conto autor e leitor podem prescindir – porque já sabem – de boa parte do contexto, para deter-se exclusivamente num detalhe, num assunto mínimo que se torna o centro da trama. Mas insisto: é uma ideia que me ocorreu agora, a partir da pergunta. Não quero ser conclusivo. 

Alguns elementos narrativos funcionam muito bem em contos futebolístico (o humor, a oralidade, os golpes emotivos). Quais, por outro lado, parecem a você não funcionar, quais contra a natureza do conto de futebol? 

Por ler com frequência contos futebolísticos, posso detectar ao menos duas tentações que devem ser evitadas. Uma: a presença e enumeração exaustiva de personagens e a descrição detalhadas de ações do jogo. Isso tem a ver com a pergunta anterior. O contexto do jogo é conhecido pelo autor e pelo leitor. Detalhar esse universo deixa o relato aborrecido de uma maneira impossível de salvar. Outro defeito possível é quando se aposta por completo no efeito emotivo de um texto, como se o autor confiasse que a pura emotividade da experiência relatada garantisse a qualidade do conto. Se está mal narrado, nenhum emotividade pode lhe salvar. 

Em algum momento na entrevista, também se pede ao Sacheri para indicar seus textos preferidos sobre futebol. Eis: 

De Roberto Fontanarrosa: “La observacion de los pajáros”, “19 de diciembre de 1971”, “La barrera”. 

De Osvaldo Soriano: “El penal más largo del mundo”, “Gallardo Perez, referí”, “El reposo del centrojás”. 

De Mario Benedetti: “Puntero izquierdo”. 

De Walter Vargas: "Del diario íntimo de un chico rubio”. 

De Rodolfo Braceli: “Señor Labruna”. 

Fui atrás deles na internet, a maioria está online (em espanhol). No Youtube, o mesmo Alejandro Apo espetacular que tornou Sacheri conhecido lê alguns desses contos. A leitura de “Señor Labruna” é espetacular. 

A entrevista completa do Sacheri está aqui.


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