Gols literários

“A bola não é a inimiga/ como o touro, numa corrida”, versa João Cabral de Melo Neto no poema "O futebol brasileiro evocado da Europa". De fato, a bola foi tudo menos uma inimiga. Ao contrário:serviu de inspiração. João Cabral que o diga: em "Museu de Tudo" (1975), há quatro poemas sobre o esporte. Insuspeitadamente, Carlos Drummond de Andrade também teve um lado boleiro. Tanto que publicou em jornais 17 poemas e 65 crônicas sobre o assunto. O material está reunido em Quando é dia de futebol.

A bem dizer, os "gols de letra" ser mais comuns nas categorias em categorias narrativas, vide o conto e a crônica. Afinal, parafraseando Flávio Carneiro, "como a literatura, o futebol também guarda no seu baú histórias de todo tipo. O drama, a tragédia, a comédia, o suspense, tem para todos os gostos".

Carneiro, aliás, foi jogador antes de se tornar escritor, e muitas das crônicas reunidas em Passe de Letra originaram-se em suas memórias.

A crônica, esse gênero tão brasileiro, foi talvez o que tenha servido de campo mais fértil para o literatura futebolística. Luís Fernando Veríssimo, além de fanático pelo Internacional de Porto Alegre, também exalta as belas jogadas e tira sarro das falhas memoráveis em muitas das crônicas de A eterna privação do zagueiro absoluto (um ótimo nome, acho eu), que também reúne textos sobre cinema e literatura.

O cronista brasileiro de futebol mais famoso, no entanto, é Nelson Rodrigues. Os textos reunidos em À sombra das chuteiras imortais (outro belo nome!) não deixam dúvida: Nelson era um caso à parte. Conta Ruy Castro – organizador do livro e autor da biografia de Nelson O anjo pornográfico –, que o cronista ia ao estádio, mas não via de verdade as partidas. Nelson era míope e tinha vergonha de usar os óculos no meio da torcida. O resultado é que o jogo se transformava numa mancha na qual era impossível distinguir quem era quem. E isso, provavelmente, ajudou na genialidade de suas crônicas, pois nela estão reflexões e histórias que vão muito além do que mostrava o placar do Maracanã.

Na seara do conto, pode-se lembrar de Rubem Fonseca, que produziu algumas narrativas sobre futebol. A mais conhecida delas é "Abril, no Rio, em 1970", com uma primeira frase daquelas que prendem (observe-se a eficiência: a frase é direta e instiga a continuar lendo):: "Tudo começou quando o cara que sentou perto de mim na grama disse, olha só o cuspe do Gérson". O conto, narrado por um jovem de dezoito anos que tenta se mostrar para um técnico famoso, faz parte do muitíssimo bem realizado Feliz Ano Novo (l975).

Mais valha, talvez, recuperar dois contistas meio esquecidos: Edilberto Coutinho e Aldyr Schlee. Também jornalista, Coutinho alcançou reconhecimento nas décadas de 1970 e 80. Em Maracanã, Adeus: Onze Histórias de Futebol, ele problematiza questões sociais ligadas ao esporte e joga com os protocolos compositivos, como em "Mulher na jogada". O conto se compões de falas alternadas tiradas de entrevistas com pessoas reais, no caso, Elza Soares, então esposa de Garrincha, e a poetisa Ana Amélia, companheira de Marcos Carneiro de Mendonça, um goleiro da época em que o esporte se restringia às elites.

Aldyr Schlee entrou para a história do futebol ao, em 1954, quando tinha 19 anos, vencer um concurso para a criação do novo uniforme da seleção brasileira (até a trágica derrota para o Uruguai na Copa de 50, o Brasil jogava de branco). Ou seja, Schlee foi o criador do uniforme composto por camisa amarela, com detalhes em verde na gola, calções azuis e meias brancas. Quando se tornou escritor, e foram 13 livros, tinha de escrever sobre o esporte, não é? E escreveu: "Contos de Futebol".

Mas e a mulheres? Falta citar a presença feminina nas relações entre literatura e futebol. Clarice Lispector (uma crônica) e Hilda Hilst (um conto), por exemplo, já se aventuraram. E a coletânea Entre as quatro linhas, organizada por Luiz Ruffato em 2013, escalou seis escritoras: Eliane Brum, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro e Carola Saavedra.

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