O romance de estreia de Jeferson Tenório

O meu amigo Jeferson Tenório tinha sido premiado em alguns concursos de contos. Mas decidiu que estrearia em livro com um romance. Demorou quatro anos para escrever, quase outros tantos para publicar. Acabou de sair, chama-se O beijo na parede (Editora Sulina). Palavras sobre o livro do Jeferson deixo a cargo de alguém mais competente do que eu, no caso, o professor da Faculdade de Letras da PUCRS Ricardo Barberena: 

“Esse jovem narrador apresenta liricamente e cruelmente um rol de personagens que permaneceram fora da festa da vida, pois são seres-refugo normalmente invisíveis devido às táticas de amnésia social que permeiam o nosso analfabetismo afetivo contemporâneo”, escreve Barberena na apresentação desse romance que transporta o leitor para o mundo João, um menino negro de 11 anos e muitas dores e desamparos para narrar. 

Da minha parte, entrevistei o autor sobre o processo de criação. 

Você foi premiado em alguns concursos contos, mas para estrear em livro partiu logo para o romance. Por quê? 
Na verdade, sempre tive predileção para as narrativas longas. Aos 18 anos escrevi à mão uma história muito ruim de 230 páginas. Para mim era relativamente fácil escrever, mas eu não era um bom leitor. Meu contato com a leitura se deu tardiamente, por volta dos 22 anos. No entanto, depois que ingressei na universidade e tive um contato maior com a literatura, a escrita se tornou para mim cada vez mais difícil. Meus primeiros prêmios foram no gênero poesia. Em seguida, escrevi alguns contos, mas percebi que passaram a ficar longos demais. Foi então que em 2006 iniciei o romance sem saber ao certo se teria fôlego para dizer que eu queria numa narrativa longa. Após quatro anos de escrita vi que tinha produzido um romance.

Como foi criar a voz narrativa de um menino de 11 anos? 
Atuei durante sete anos como professor de escola pública, com alunos dessa faixa etária. Aprendi neste período que as crianças tem um lirismo muito poderoso e desconcertante, tão profundo quanto a de um filósofo. Mas passar isso para uma narrativa é outra coisa. Sustentar um discurso infantil durante toda a história foi difícil porque eu precisava dar verossimilhança a este discurso. Experimentei muitas formas de narrar até encontrar este tom entre a crueza, o lirismo e a espontaneidade. Neste sentido fui bastante influenciado pelo personagem Riobaldo, do Grande sertão veredas. Sempre me chamou atenção a capacidade lírica e filosófica oriunda de um homem aparentemente simples. 

O professor Ricardo Barberena afirma que seu livro reflete o analfabetismo afetivo de nosso tempo. Você concorda? 
Ele foi muito preciso em sua análise. O livro gira em torno do abandono e das perdas afetivas de um menino. O ato de beijar uma parede representa a ultima instância afetiva, é quando todos já se foram e não resta nada, a não ser a parede fria, dura e intransponível. O único aprendizado possível desse analfabetismo é pela tristeza e que ao logo da narrativa se transforma em resistência.

No seu caso, estudar teoria influencia na prática literária?
As questões de técnicas narrativas eu aprendi lendo e experimentando sem que isso fosse organizado ou sistematizado. Errei mais do que acertei. Até encontrar uma voz narrativa que me agradasse. Mas creio que se eu tivesse acesso às teorias anteriormente, talvez eu tivesse uma consciência narrativa mais cedo. Mas de modo geral a teoria tem sido importante no sentido de prestar mais atenção nos tipos de personagens que construo. Procuro dar protagonismo àqueles personagens historicamente excluídos ou que são colocados numa situação de subalternidade.


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