Ói, ói o trem

Estou na linha E da CPTM, que sai da Luz e vai até Estudantes. Pela frente tenho uma missão jornalística: percorrer toda a malha ferroviária da Grande São Paulo. Por quê? Ora, para desvendar de ponta a ponta a cidade dos trilhos. Pela janela, vejo passar o "T-Sunami Cabelereiros", bem ao lado do "Galindo, o Rei do Mocotó". A estação Estudantes, a derradeira, fica a leste da Zona Leste. É o fim da linha mesmo, já em Mogi das Cruzes, a mais de 50 km do ponto inicial no centro de São Paulo. 

Dentro dos trens, os vendedores são um espetáculo à parte. Surgem sorrateiros e tiram das mochilas as mais diversas guloseimas e bugigangas. O rapaz dos livros de frases feitas repete e repete e repete as sábias sentenças. Para convencer a freguesia:

“Se você nunca viu a cor do dinheiro, além de pobre, é cego”.
“Alegria de poste é estar em um mato sem cachorro”.

O homem dos livros de piadas segura dois exemplares diferentes e avisa: “Este aqui pode ser lido pelas crianças também. Já este outro é só para adultos”.

Quase sempre a segunda edição é a escolhida pelo comprador.

A vendedora de cerveja também degusta a mercadoria. Entre um gole e outro, ela diz o preço e questiona “Vai beber ou quer que eu beba?”. Pela voz e pelo jeito de andar, a moça leva bem a sério o bordão. 

Na linha C, que vai de Osasco a Jurubatuba, o panorama muda. O trecho é o mais “nobre”. Os vagões são os mais limpos e modernos da rede, todos com ar-condicionado. Só faltou um odorizador, pois os trilhos margeiam o rio Pinheiros e o cheiro...bem, o cheiro é aquela coisa. Pela janela, dá para observar o prédio da Daslu, quase em frente à estação Vila Olímpia. Dentro do trem, um negro com cabelo rastafári balança um chocalho e canta animadamente músicas de sua autoria em companhia da mulher e da filha pequena. A letra diz para os passageiros usarem suas antenas interiores para captar o som do cosmo. Depois, todo sorridente, ele passa um chapéu dizendo que costumava tocar violão, mas o perdeu fugindo de fiscais da CPTM e agora quer juntar dinheiro para comprar um novo instrumento.

Nas linhas A e D estão as estações mais antigas, como a de Jundiaí e a de Rio Grande da Serra, do tempo em que andar de trem era chique. Os vagões também parecem ser daquela época. Começa a chover, um senhor tenta fechar a janela, que está emperrada, e ele machuca o dedo na trava enquanto xinga o governador. Já com as janelas devidamente fechadas, percebo que dois fortões fumam justamente sob um anúncio proibindo o cigarro, mas algo me diz que não devo avisá-los da proibição. Na estação Brás, ao fazer baldeação de um trem para um metrô, aproveito para comer. Fico em dúvida entre o dogão prensado com 2 salsichas ou o churrasco grego. O preço é o mesmo: R$ 0,99. Para acompanhar, um copinho de refresco sai por R$ 0,50. Pensando bem, melhor almoçar em casa.


*Esse texto saiu num especial do Guia Quatro Rodas, lá pelos idos de 2006.

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