Borges ou Cortázar?

Um foi apolítico e não se levantou contra a ditadura argentina nos anos 1970, outro foi de esquerda. Um é conhecido como gênio no exterior, mas o outro é mais querido na Argentina. Um sempre tinha a barba feita e os cabelos bem penteados, outro era barbudo e desgrenhado. Um escrevia de forma ordeira e planejada, o outro era bem mais intuitivo. 

Os leitores, principalmente os argentinos, gostam de lembrar as diferenças entre Jorge Luis Borges (1899-1986) e Julio Cortázar (1914-1984), mas o fato é que os dois talvez maiores nomes da literatura da Argentina também convergem em muitos aspectos.

Ambos eram adeptos de uma literatura breve (apesar das incursões de Cortázar pelo romance, vide o O jogo da Amarelinha), foram exímios contistas, inovadores e com predileção às narrativas enigmáticas e fantásticas. Ambos foram ótimos tradutores e ensaístas. E, é preciso ressaltar, ambos nunca foram rivais. 

Na verdade, Borges foi uma inspiração para Cortázar, principalmente no início de carreira, mas não só. E, em 1946, a instituição cultural Los Anales de Buenos Aires fundou uma revista com o mesmo nome. A revista teve vinte e três números e foi dirigida por Borges a partir do terceiros deles. Um dia, caiu nas mãos de Borges um conto fantástico enviado por um autor desconhecido, um jovem professor. Ele decidiu publicar. O conto era "Casa tomada" e foi a estréia de Cortazar numa publicação. Depois, em 1951, seria incluído em seu primeiro livro – Bestiário – e se tornaria, assim como o livro, um clássico. Uma última curiosidade: na Buenos Aires de hoje, a rua Jorge Luis Borges se encontra com a praça Cortázar, um dos pontos mais populares do bairro de Palermo.


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