Dona Milu e eu

Seria um vôo pinga-pinga, coisa de passagem aérea barata. De São Paulo a João Pessoa, com escala em Belo Horizonte e Brasília. No avião, avisto alguém em meu lugar. É uma senhora antiga, com pele de chão agreste. Peço para ver a sua passagem. O assento marcado é outro, bem mais atrás. Digo a ela, mas – talvez pensando que eu fosse o comissário de bordo – ela responde que prefere ficar ali mesmo. Se chegasse alguém, aí se mudaria. Ora, eu sou esse alguém, mas por que insistir? O avião não estava lotado, pelo menos por enquanto eu podia me acomodar na poltrona ao lado. 

Dona Milu e eu estivemos juntos das oito da manhã às duas e meia da tarde. Quase todo o tempo foi dentro do avião, a não ser quando tivemos de fazer conexão em Brasília, o que não estava previsto. Como ela não entendia nada sobre asas, plataforma e portões de embarque, e a companhia aérea nos soltou no aeroporto sem nenhuma orientação, eu a ajudei. 

Dona Milu morava em Patos, na Paraíba, “lá nos cafundós do sertão”. Tinha ido a São Paulo porque a filha caíra em depressão, e "nessas horas, você sabe, só a mãe mesmo". Eu sabia, sabia bem, pois às vezes sentia muita falta de minha mãe, mas não falei nada. Ela me mostrou fotos da filha, que naquele momento já melhorara (por isso dona Milu estava voltando para os seus "cafundós"). Também vi fotos de seu "véio" e do sítio que eles têm nos arredores de Patos. 

E o que tinha para fazer lá na cidade dela? 

Ela desandou a falar sobre a Menina Santa, que atrai romeiros de toda a parte. Era a principal atração de Patos, dona Milu inclusive me garantiu que o seu pai conseguira dois milagres. Disse também que eu devia dar uma passadinha em Patos, visitar o santuário e aproveitar para tomar um café na casa dela. Apesar de, como todo mundo, estar precisando de alguns milagres, declinei amavelmente do convite, pois o meu roteiro era só pelo litoral. Continuamos a conversar e, no desembarque em João Pessoa, na hora de nos despedirmos, a dona Milu me disse que naquele dia eu havia sido o filho que ela não teve.




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