A crônica do café bíblico

Tem ou tinha, na Santa Cecília – o meu bairro tanto em São Paulo quanto em Porto Alegre – um café bíblico. Eu peregrinava pela Martim Francisco quando o avistei. Recém-aberto, não, não se chamava Santo Grão, e pertencia a uma editora de livros religiosos. Não pude deixar de entrar. 

"Um espresso com a graça de Deus, por favor", eu disse, e o atendente sorriu meio sem graça. Escolhi uma mesa na sala mais ao fundo, num ambiente sóbrio, amadeirado, acarpetado, com uma estante cheia de livros – religiosos, mas também os jornais do dia – e ar-condicionado. Um reduto tão longe e tão perto dos carros e do calor que me faziam perder a fé...

O expresso chegou, e não é que era bom? Ok, não era, digamos, divino, mas me arrisco a dizer que era (isso faz tempo, eu ainda aguentava São Paulo) o melhor da Santa Cecília.

Na hora de pagar, puxei conversa com o atendente. Tinha vindo da Bahia, de perto da fronteira com Sergipe. Perguntei quem fazia o bolo de brigadeiro que estava no balcão, e ele disse que era a boleira deles (um bom sinal que o bolo fosse feito lá). Ele também disse que empada era boa, perguntei quem fazia, mas era de um fornecedor.

Paguei, e o atendente disse obrigado, ao que respondi Amém, e fiquei  pensando que poderiam pendurar uma placa: Só o café salva! Ou melhor: O café também salva! (e devo dizer que acredito nisso). Enfim, por um tempo, sempre que alguém queria tomar um café comigo – isso acontecia com certa frequência, eu era uma pessoa legal naquela época, o mal ainda não tinha invadido o meu coração – eu levava ao café bíblico. O qual, pesquisando a imagem para essa postagem, descubro ser um ótimo negócio. Uma rede, espécie de Starbucks especial para os crédulos. E cheio de filiais pelo mundo.


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