Pneu baixo

Estava em Guarda do Embaú, devia almoçar em Curitiba, mais de 300 km, e a manhã já rasgando. Antes de entrar no carro, vi que era necessário calibrar os pneus, em algum posto da BR-101 eu paro, não parei, uma vez na estrada, esqueci, só me lembrei de acelerar.

Pneu baixo aumenta o consumo de combustível, a borracha gasta mais rápido, não estava preocupado, as despesas da viagem eram pagas, o carro era alugado. Pneu baixo em alta velocidade esquenta mais rápido, aumenta o risco de estourar, se acontecesse ficaria difícil controlar o carro, dane-se, só queria ganhar tempo.

Passei pela entrada de Floripa, deixei para trás a entrada de Bombinhas, porém em algum lugar próximo a Itapema tive de entrar num posto para evitar uma pane seca.

Um carro de polícia parado, talvez mais de um, não fui capaz de notar algo errado. O frentista veio me atender, tampouco percebi, tenho de chegar a Curitiba, pensei, enche o tanque, por favor, falei, e o frentista encheu e depois, como se fosse quer que dê uma olhada no óleo?, o frentista soltou: teve um assassinato aqui hoje. 

“Como assim, um assassinato?” 
“Cheguei de manhã e achei o corpo.” 
“Sério?” 
“É, eu achei que o cara estivesse dormindo, chamei, cutuquei e então vi a poça de sangue.”

Olhei pelo retrovisor, me dei conta, por isso tantos policiais, e por algum motivo me lembrei do pneu. 

“O senhor pode calibrar os pneus pra mim?” 
“Não vai dar” 
“Por que?” 
“O cara foi morto bem ao lado do calibrador, falei pro policial se podia tirar o aparelho de lá, mas ele não deixou, é cena de crime.”

Paguei e fui saindo bem devagar, para ver o corpo. E o vi, ao lado do calibrador, no canto da troca óleo. Vi o cara, o corpo do cara, estirado, estatelado, descoberto. No posto seguinte parei para calibrar os pneus.

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