Um estímulo do João Gilberto Noll

Então o João Gilberto Noll foi dar um curso na PUCRS e o curso tinha o belo nome de "Dar alma à correnteza" e por três tardes ele falou de seu processo criativo e leu daquele modo magnífico como ele lê e respondeu perguntas e na última tarde deu um estímulo para que escrevêssemos por quinze minutos e o estímulo era um casal discutindo e depois o Noll deu outro estímulo, para mim, ao dizer que gostou muito de meu texto resultante e eu duvido a não ser que ele tenha considerado que eram quinze minutos e tirem vocês suas próprias conclusões:


Precisamos de cama com cabeceira.

Pra quê?

Pra eu te amarrar na cabaceira. Pra eu te deixar à mercê de mim.

À mercê? 

Hum hum.

À mercê pra quê?

Pra ver se a minha raiva acaba. De vez. Porque assim não dá. Não dá. Eu tenho raiva. Raiva de você. 

Eu sei. 

Eu sei que você sabe. Você diz que o sexo é bom, a convivência não é. Você vive repetindo isso.

O sexo é bom, é verdade.

Não sei. Não sei. Isso também é verdade. Você demora muito pra gozar. Me dói. Me doem as entranhas. Mas você também me faz gozar, não nego. Nós somos um raro casal em que a mulher goza antes. E é verdade que a convivência não é boa. Nunca foi. Então eu quero te amarrar e resolver isso.

Como?

Quero acender uma vela. 

Uma vela?

Hum hum.

Pra...

Não pergunta mais pra quê. Isso me irrita, como muitas coisas. Mas também gosto de você. Não tanto quanto eu gostava, mas ainda gosto, mesmo oprimida e infeliz, e talvez as duas coisas nem sejam culpa sua exatamente, o problema somos nós juntos convivendo, e mesmo assim, mesmo sabendo disso, ainda não sei te deixar.

Eu não quero te deixar.

Mas precisamos. Precisamos de uma cama de cabeceira.

Podemos ir ao motel.

Não, tem de ser em casa.

Por quê?

Para eu decidir se vou queimar tudo. Fazer o contrário da "Medida do Bonfim", do Chico, queimar as sobras de tudo que chamam lar, as sombras de tudo que fomos nós, as marcas de amor nos nossos lençóis, os lençóis, você no lençol. Não, não diga nada. Porque a vela pode ser só para o nosso relacionamento dar certo. Ou para ele que deu errado e está finado, não sei.

Finado?

Não sei, não sei. Quero te amarrar, suas mãos acima da cabeça e presas à cabeceira da cama, quero te vedar, quem está vendado não consegue ver o que está acontecendo, você não saberá o que...

Meu bem, o que está acontecendo?

Cala a boca! Vou acender uma vela, uma vela branca pra queimar a sua pele branca e provocar vermelhidão, os pingos de cera quente perto do teu pau, quero te despir, quero te queimar com parafina, delicadamente, quero te chupar, eu gosto de te chupar, deixo a vela te lado, ela fica ali como se para te louvar.

Me louvar?

Uma vela em seu louvor enquanto eu te chupo. Eu gosto de te chupar, abocanhar o teu pau, é um fato, não nego. Quero te chupar e depois quero montar em você. Hoje você não monta em mim. Eu em você. Com a vela não. Então quero cavalgar segurando a vela, quero ouvir aquelas coisas que só nesses momentos você diz, como sou linda, como sou maravilhosa, como meu cheiro é bom, como você me ama. E quando você fizer aquela careta de gozo, a boca entreaberta, os olhos que se fecham num espasmo, você e seus espasmos, eu e meus espasmos, mas não dessa vez, dessa vez eu vou pegar a vela acesa, vai ser uma daquelas que não apaga nunca, a boca aberta, então vou enfiar a vela dentro do seu ouvido, ela não apaga nunca e eu vou empurrá-la com força, sem delicadeza, a vela acesa, a chama da vela. 

Silêncio

Silêncio por quê? Tem mais. Porque se a minha raiva não passar, eu pego a vela a acendo os lençóis. Saio nua do quarto, com as roupas na mão, vou me vestir na sala, com calma. Depois vou dar uma volta.

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