Katmandu, Nepal

Ficamos na ala do hotel em que os Beatles tinham ficado, isso foi lá em 1968, hoje os quartos são os mais baratos e não são bons, é preciso que se diga, mas os Beatles... Dormimos onde eles dormiram, e naquela época eles não foram reconhecidos, as coisas do mundo não chegavam ao Nepal como hoje... Eu me deixava divagar no escuro do quarto, a minha esposa ainda dormindo, e eu esperando apenas clarear lá fora.

Então eu saía pelas ruas de Katmandu para ver a vida começando em mais um dia banal e até no gue turístico do Thamel eu sentia prazer em caminhar pelas ruas vazias e seguia em direção ao centro, onde havia gente de verdade e construções apertadas, ruas, ruelas idem, eu entrava entre os prédios, e no fundo costumava haver um pátio com um templo e bem de manhã os monges faziam a sua oração e eu assistia descalço e em silêncio e depois me atrevia a passar os dedos na espécie de rolos de metal que se devia tocar enquanto se dava a volta no templo em sentido horário enquanto o cheiro do incenso e as vozes ritmada dos monges e o bater de asas dos pombos, que, sim, havia pombos felizes por toda a parte, estarão lá agora?

Depois eu seguia para o mercado e ficava a ouvir as vozes e apreciar as romãs, foi uma viagem de romãs grandes e vermelhas e cheias de suco como nunca provara e eu comprava romãs e também bananas cheias de gosto para o café da manhã com minha esposa e às vezes na volta para o hotel me desviava por umas ruas sem asfalto, a poeira de Katmandu me marcou, eu tossia e olhava tudo com olhos que lutavam para não se fecharem com a poeira, não queria perder nada por nenhum momento. 

Katmandu. Nepal. 

Esses dias acordei no meio da noite em Porto Alegre ou em Assis ou em qualquer lugar sempre acordo no meio da noite e me pego pensando e desta vez pensei: E se o terremoto tivesse acontecido há dois meses e se tivesse sido quando eu estava caminhando pela cidade recém-amanhecida e todos aqueles sabores e cores e odores tivessem se tornado poeira e tanta que meus olhos tivessem se fechado e não só meus olhos. E se tudo se fechasse para sempre em ruínas?


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