Um prefácio: Contos sem tarja preta

Os contos desse livro são oriundos de uma oficina de criação literária, e isso não é apenas um detalhe.

Oficinas literárias consagraram-se ao redor do mundo por ampliar a gama de escritores em atividade, mas a oficina da qual resultou esse livro é um caso à parte. Afinal, ela foi destinada para pessoas com sofrimento psíquico grave. 

Conforme o projeto idealizado pelo psiquiatra Luiz Ziegelmann, deveriam ser oferecidos aos pacientes estímulos para que, através de suas narrativas de vida, conseguissem ressignificar seus traumas e sofrimentos. Indicado por Luiz Antonio de Assis Brasil, eu aderi de imediato à ideia. Com empolgação e certo pânico, é preciso confessar. 

Toda sexta-feira, eu atravessava o corredor lotado do ambulatório do hospital, entrava na sala 1032 e me sentava ao lado do Luiz Ziegelmann. Então falávamos todos – o psiquiatra, o escritor e os pacientes – das circunstâncias diversas que podem nos fazer perder a esperança no desgastante cotidiano, onde, às vezes, parece que sobreviver torna-se condição contrária a de ser feliz. Sobretudo, porém, tentávamos falar de como lutar contra essas circunstâncias. De como pescar motivos para possíveis momentos de felicidade. E de como usar tudo isso para produzir literatura. 

Quanto ao projeto, o resultado foi mais que positivo. Em todos os aspectos. Se o Luiz Ziegelmann me informava que estávamos conseguindo gerar potência clínica e, através da escrita, viabilizar modos de existência mais leves, livres e com alguma alegria, no aspecto literário eu lhe dizia minha opinião de que os pacientes me fizeram lembrar do historiador Hayden White. 

Sempre me impressionou a proposição de White de que a estrutura do discurso narrativo em prosa é uma das características definidoras da espécie humana. Por esse raciocínio, seríamos “a espécie narradora”, que existe pela força de contar histórias, de relatar nossa situação. 

Contos sem tarja preta originou-se numa oficina de criação literária para pessoas com sofrimento psíquico grave, porém isso é apenas um detalhe. Pois os autores oferecem uma literatura aguda, sem medo da emoção, e conseguem proporcionar minutos de alegria e prazer a qualquer um que goste de ler.


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