Do segundo dia de uma residência literária

O vento direciona a chaminé da casa vizinha. Apressada passa a fumaça defronte à minha janela. Me parece certa de seu rumo, a fumaça, enquanto as árvores se curvam para o mesmo lado, e a antena da tevê balança balança. 

Balançam as memórias.

A antena é igual àquela que meu pai tinha de ir até o quintal pra girar o mastro, e a gente gritando da sala, tá bom, não tá, mais um pouco, tá, e o ar recendendo às brasas do fogão na despensa de piso vermelho onde prendemos o Quinho pra ele não atrapalhar a festa.

O Quinho latindo no tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto na casa antiga com fogão à lenha na despensa.

Outros cachorros se manifestam na manhã de domingo, e um pássaro colorido também balança, equilibrando-se na antena. De repente suas asas cruzam os meus olhos cortando o vento. O vento e as árvores e a fumaça e as memórias. O pássaro que voa no céu azul azul azul, mas desbotado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário