4h48

Acorda no escuro que vira penumbra quando os olhos se acostumam. No criado, o celular, 4h48. Sopra algo como um vento violento e repentino, “Eu não quero viver”, “Eu não quero morrer”, lembra-se de um poço no Sesc Belenzinho lá atrás na década, e a Sarah, ele nunca a entendeu, mas nem por isso deixou de sentir a sua força. 

Sarah Kane (1971-1999), a inglesa de personagens que vivem, assim como ela viveu, o desespero até o limite. Numa das peças, a muito autobiográfica Psicose 4.48, uma mulher em estado psíquico terminal questiona sua vida e o modo como o mundo (não) funciona. 

“Fui eu mesma que eu nunca conheci, aquela que tem a face colada na parte inferior da minha mente”, diz a personagem, que assim como a autora passou por tratamento psiquiátrico. “Eu não quero viver”, “Eu não quero morrer”, “Eu não sou doente”, “Você é minha única esperança”, a mulher fala como se estivesse se debatendo, lutando para não afogar. De alguma forma estava. Estavam. 

4h48, o texto informa, é o horário em que ocorria o maior número de suicídios na clínica psiquiátrica onde se encontra a personagem. Acabar ou não acabar com a própria existência é o tema da peça. O caráter autobiográfico fica mais evidente quando se sabe que Sarah Kane morreu aos 28 anos. Suicidou-se poucas semanas depois de terminar de escrever a peça. Os cinco textos teatrais que deixou se mantêm (e a mantém, a ela, a autora) vitais. 

E sabe aquela a penumbra? Continuará sempre lá.

Exibindo 448-psychosis-by-sarah-kane.jpg

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