Woody Allen, jazz, Nova Iorque (e este que vos escreve)

Woody Allen sempre escutou jazz. Era o tipo de música mais popular em sua infância. Ele cresceu ouvindo no rádio gente como os clarinetistas Benny Goodman e Artie Shaw e o trombonista Tommy Dorsey. No começo da adolescência, Allen passou a comprar discos de jazz. Foi após ter ouvido o clarinetista e sax soprano Sidney Bechet pela primeira vez, quando tinha quatorze ou quinze anos. Ficou muito impressionado e Bechet passou a ser seu ídolo. Depois vieram o trompetista Bunk Johnson, o pianista Jelly Roll Morton e, finalmente, Louis Armstrong, que o empolgou a ponto de fazê-lo comprar um trombone e tentasse aprender a tocá-lo sozinho.

Conforme o cineasta conta no livro de entrevistas Woody Allen por Woody Allen (Editora Nórdica, 1995), do jornalista sueco Stig Bjorkman, aos poucos ele trocou o sax pelo clarinete, o que considera “uma progressão lógica”. Passou a tomar aulas com o reconhecido clarinetista Gene Sedric. Na época, Allen já amava o jazz, um sentimento que o fez afirmar que boas gravações do gênero são uma das razões pelas quais vale a pena viver. Em Manhantan (1979), o protagonista exemplifica isso citando a gravação de Potato Head Blue que Louis Armstrong fez com sua banda, em 1927.

O amor de Woody Allen pelo jazz evidenciou-se em seus filmes a partir de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), quando pela primeira vez recheou de clássicos do gênero a trilha sonora. Na época, a predileção jazzística atraiu a atenção da mídia não pela trilha sonora, mas porque Allen não foi receber seus Oscars de direção e roteiro original. Preferiu tocar clarinete com a Eddy Davis New Orleans Jazz Band no Michael’s Pub, um lugar acanhado no bairro novaiorquino do Greenwich Village.

Allen subiu pela primeira vez em um palco para tocar no final dos anos 60. E não foi em Nova Iorque. À época, estava se apresentando como humorista na casa noturna The Hungry, em São Francisco. Sempre que podia, costumava ir a um bar das redondezas ouvir jazz. O trombonista Turk Murphy tocava lá. Um dia, Murphy o convidou para acompanhá-lo. Allen disse que tocava clarinete, mas que nunca conseguiria acompanhar uma banda. O trombonista não aceitou a resposta negativa e insistiu até que Allen aceitasse. O então humorista gostou tanto que repetiu a experiência e, quando voltou a Nova Iorque, reuniu alguns músicos para que tocassem juntos. 

A partir de 1971, Woody Allen e a Eddy Davis New Orleans Jazz Band passaram a se apresentar às segunda-feiras, no Michael’s Pub. Não eram shows muito concorridos, mas Allen gostava de participar. Daí ele ter uma desculpa para não ir à entrega do Oscar de 1977  o evento era realizado numa segunda-feira.

Em 1996, quando o Michael’s Pub fechou, Allen concordou em se juntar à banda para uma excursão pela Europa. Foram 23 dias de shows lotados em dezoito cidades, retratados no documentário Wild Man Blues (1998), dirigido por Barbara Kopple, que fez reacender a atenção midiática pela paixão musical do cineasta. Agora ele e seus amigos músicos se reuniam no elegante Carlyle Café, onde continuam, sempre às segundas, até hoje. 

Equivoca-se quem pensa que é um programa turístico dos mais populares. Talvez pelo preço – veja detalhe aqui , não são muitos os turistas que comparecem, ao menos estrangeiros, já que quase só se ouve inglês no ambiente. Engana-se também quem espera que Woody Allen na vida real seja parecido com seus personagens nos filmes, mesmo que um pouquinho. Ele não faz piadas, por exemplo. Na verdade, ele, praticamente, ignora o público.

O show começa às 20h45. A banda sobe primeiro ao pequeno palco. Depois aparece Allen. Vestido em roupa esporte, de tons pastel, o cineasta concentra-se apenas na clarineta até o agradecimento ao final. Quando não está tocando, olha para cima e acompanha o ritmo com leves movimentos de cabeça.

O repertório, composto de nove músicas que variam a cada semana, parece saído de um filme de... Woody Allen. Ou seja, uma mistura de standards e clássicos da primeira metade do século 20. Como músico, Allen é um amador inspirado. Se pudesse, ele gostaria de soar como o clarinetista George Lewis, ele declarou certa vez. Assim como reconheceu que, apesar de não ficar um dia sem treinar com seu clarinete Reed número 5, sabe que nunca será muito bom, pois não é seu talento especial.

Quando este que vos escreve assistiu ao show, teve a impressão de que o destaque foi September Song, de Kurt Weill e Maxwell Anderson, em que Eddie Davis (“O coração da apresentação”, segundo Allen), além do banjo, assumiu os vocais e fez um dueto com o cineasta.

Uma última curiosidade é que o som não é amplificado, uma prática quase inexistente nos concertos de hoje. Como o Carlyle Cafe é pequeno, não se torna necessário o uso de microfones. Assim, é sem amplificação que se ouve a voz do cineasta quando ele, finalmente, dirige-se ao público para um curto agradecimento antes de se retirar.



Texto antigo, do jeito que eu então queria, mas não do jeito que se publicou (o jeito que se publicou está aqui).

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