Grove End Road, esquina com Abbey Road

"Os Beatles eram de Liverpool", diz o guia. "Porém, em 1963, após o sucesso, eles tiveram de se mudar para a "Swinging London", a capital cultural dos anos 60." Assim começa o The Beatles Magical Mystery Tour. São 11h de uma quinta-feira. O grupo está na saída do metrô Tottenham Court Road, ponto de encontro para o passeio de quase três horas pelos principais lugares na capital inglesa relacionados à banda mais popular de todos os tempos.

O guia se chama Richard Porter, já passou dos 50 e construiu sua vida em função dos Beatles. Há 25 anos conduz passeios sobre a banda em Londres. Escreveu um livro sobre o assunto, abriu uma café temático e, em seu site - www.beatlesinlondon.com -, exibe orgulhoso uma foto sua com Paul McCartney.

Após recolher o valor do tour (10 libras) dos 29 participantes, ele pede para que todos o sigam. Percorrem-se dois quarteirões e chega-se a à Soho Square. Do outro lado da rua, está o prédio que abriga a MPL, a produtora de Paul McCartney. "MPL quer dizer McCartney Productions LTD, e não McCartney, Paul e Linda", explica o guia, enquanto mostra uma foto de Paul e Linda (sua mulher, morta em 1998). 

Mais dois quarteirões, e o grupo pára em uma ruazinha apertada, apenas para pedestres: a St. Anne's Court. Ali fica o Trident Studios, onde, em 31/7/68, foi gravada "Hey Jude". O guia conta que a canção foi escrita por Paul para Julian, filho de John Lennon e sua primeira mulher, Cynthia. Na época, o casal ia se separar. 

A próxima parada é defronte a um banheiro público. Em 27/11/66, o local foi cenário de um quadro do programa "Not Only...But Also". O convidado era John Lennon. Pela primeira vez, ele apareceu com os óculos redondos que se tornariam sua marca. 

Dali, ganha-se a Carnaby Street , o coração da "Swinging London" da década de 60. Pela Carnaby, segue-se até a Argyll Street, onde fica o teatro Palladium. Em 13/10/ 63, os Beatles fizeram furor no programa televisivo "Sunday Night at the London Palladium". No outro dia, imagens das fãs gritando histericamente estavam em todos os jornais. Estava consolidada a beatlemania. 

A parada seguinte é onde funcionava a casa noturna The Bag O'Nails, freqüentada por roqueiros nos anos 60. Ali dentro, em 15/5/67, Paul McCartney conheceu uma fotógrafa chamada Linda, com quem se casaria em 69. 

Depois de mais alguns quarteirões, chega-se a um prédio de que todo beatlemaníaco já ouviu falar. O telhado do edifício que abrigava a produtora dos Beatles, a Apple Studios, na Saville Row, foi também o local em que eles fizeram o último show, em 30/1/69, como parte do documentário "Let It Be". A trilha sonora do filme seria o derradeiro disco do grupo a ser lançado. 

Uma das estações de metrô mais próximas do prédio da Apple é a Green Park. É para lá que o grupo se encaminha. A parte final do passeio se dá três estações depois, em St. John's Wood. Logo na saída da estação, o guia indica o caminho pela Grove End Road. São três quarteirões até um certo cruzamento, com a Abbey Road. É o ápice do tour. 

O grupo está diante da faixa de pedestres mais famosa do mundo. Em 8/8/69, Paul, John, George Harrison e Ringo Star foram fotografados para a capa de um novo disco atravessando a faixa. "O disco se chamou 'Abbey Road'". 

O guia tenta explicar mais detalhes, mas pára de repente. Um dos participantes do tour está em pé, no meio da rua, tirando fotos de outro participante na faixa de pedestres. O guia afirma que as fotos devem ser tiradas da calçada, pois a via é movimentada e já houve atropelamentos nas mesmas circunstâncias. É inútil. Todos vão para o meio da rua. O trânsito pára. Quase ninguém buzina. Deve ser uma cena comum. 

O tour termina a poucos metros dali, em frente ao mítico estúdio Abbey Road, onde foram gravados os discos dos Beatles. O muro do estúdio vive cheio de mensagens deixadas pelos fãs. A cada três meses é repintado para que novas mensagens possam ser escritas. Eu deixei a minha, mas deve ter sido apagada faz tempo, pois foi na época em que fiz esse passeio.

Outro texto do baú. De minhas reportagens de turismo. Saiu, originalmente, na Folha de S. Paulo, em 2005 (sim, eu atualizei para postar).



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