A comovente busca (e a ideologia por trás) de Oskar Schell

Nesta semana faria 14 anos que o pai de Oskar Schell morreu. Naquela terça-feira, 11 de setembro de 2001, Oskar, como sempre, foi à escola; seu pai tinha uma reunião no World Trade Center. As aulas foram suspensas, e os alunos liberados. Ao chegar em casa, às 10h18 (ele vivia olhando no seu relógio de pulso), o apartamento estava muito vazio e silencioso, Oskar fez um carinho no Buckminster, o seu gato, para mostrar que o amava, e foi checar as mensagens na secretaria eletrônica. Havia várias mensagens de seu pai. Ele ligava do World Trade Center, tinha acontecido alguma coisa lá, ainda não sabia o quê. As mensagens ficavam cada vez mais desesperadas.

Extremamente alto & incrivelmente perto (2005), de Jonathan Safran Foer, foi uma das primeiras obras ficcionais de peso a tematizar o ataque às Torres Gêmeas. O romance é centrado em Oskar Schell. O menino mesmo conta a sua história. Ele tem nove anos, é superdotado e sofre com a morte do pai. Inventa então uma jornada por Nova York à procura de uma fechadura para a chave encontrada no armário do pai. A única pista é a palavra Black escrita no verso do envelope no qual a chave estava. Oskar, que esconde as mensagens da família, no fundo quer saber: por que ele não se despediu de mim? Por que ele não disse que me ama? 

Foer usa recursos gráficos e fotos, inclusive uma polêmica sequência da queda livre de uma vítima real do atentado. Fez sucesso – virou best-seller, ganhou adaptação para o cinema–, e recebeu críticas de ser sentimental e apelativo.

“Não há dúvida de que se trata de uma história comovente. O livro não perde uma chance de fazer você sentir pena desse garoto esperto e muito triste de nove anos (e, na verdade, qualquer romancista que não consiga fazer o leitor sentir pena de um garoto nessa situação provavelmente não deveria ser um novelista). Mas o livro, na verdade, é comovente demais”, escreveu Robert Eaglestone, em Contemporary Fiction: a very short introduction (p. 71). 

Para mim, esse não é um problema – talvez eu seja um daqueles que se comovem por tudo e por nada. Porém não podemos esquecer de outra questão levantada por Eagleston: a opção de Foer por narrador infantil.

Disso decorre uma descomedida simplificação do contexto envolvendo os atentados de 11 de setembro. Vira uma questão do bem contra o mal. Os terroristas, claro, assumem o papel de vilões unidimensionais. Como os monstros dos contos de fadas. E corre-se o risco de generalizar terroristas e muçulmanos.

Retomando um parágrafo anterior: Extremamente alto & incrivelmente perto (2005) foi uma das primeiras obras de ficção a tematizar o ataque às Torres Gêmeas. Sim, funciona como narrativa.  Mas toda narrativa traz impregnada uma visão de mundo. Aqui, faltou distanciamento crítico. O romance clama por um contraponto que nunca vem; uma problematização mais abrangente. Talvez, no fundo, tenha faltado exercer a alteridade.

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