Um passeio sartreano em Paris

Houve um tempo em que a juventude parisiense se esparramava pelos cafés da rive gauche, a margem esquerda do Rio Sena e se punha a discutir dilemas filosóficos. Corriam então os anos pós-Segunda Guerra, quando uma devastada Europa tentava se reerguer e a corrente filosófica em voga era o existencialismo. E, nos cafés, podia-se encontrar Jean-Paul Sartre, um dos ícones do período.

Autor de uma obra que conjugava tratados sobre o absurdo experiência humana – como o calhamaço O Ser e o Nada – a excepcionais narrativas de ficção (pensemos, por exemplo, na trilogia Os Caminhos das Liberdade), Sartre foi um hoje raro caso de intelectual com popularidade. A tal ponto que 50 mil pessoas compareceram ao seu enterro, em 1980. 

Pensando nisso tudo, planejo uma tarde sartreana na capital francesa. Nos bairros de Saint-Germain-des-Près e Montparnasse, sairei em busca dos cafés favoritos de Sartre e, depois, me proponho fazer uma visita ao filósofo e a sua companheira.

A linha 4 do metrô me deixa na estação Saint-Germain-des-Près, na esquina do bulevar Saint-Germain com a rua Bonaparte. A saída desemboca na praça que, desde 2000, se chama Sartre-Beauvoir, em homenagem a ele e à também brilhante Simone de Beauvoir.

Caminho pelo sempre movimentado bulevar até o uma vez chamado "triângulo cultural" do bairro, o trecho onde ficam os vizinhos Les Deux Magots e Café de Flore e, atravessando a rua, a Brasserie Lipp. Sartre gostava dos cafés. Comecemos então pelo Les Deux Magots, um nome que, como alguém escreveu certa vez, traz lembranças, vividas ou lidas, recordações do símbolo e referência de toda uma época. O café fica oficialmente na praça Saint-Germain-des-Près, que por sua vez, está localizada no bulevar. Em suas mesas, o filósofo passou incontáveis horas conversando com outros intelectuais e estudantes. Eu me permito um café au lait, um ovo cozido e uma pequena  garrafa  verde de Perrier e observo o público que hoje é formado basicamente de turistas estrangeiros e franceses ricos.

Depois de admirar a majestosa igreja românica do século XII (sem entrar, afinal, Sartre declarou de modo veemente seu ateísmo) que a praça Saint-Germain-des-Près também abriga, caminhos poucos metros até o Café de Flore. Se gostava de conversar no Les Deux Magots, Sartre preferia o Flore para trabalhar, tanto que ele e Simone de Beauvoir usaram o local como escritório durante a ocupação alemã. Hoje, o Flore padece do mesmo mal do concorrente (e de quase todos os mais famosos cafés parisienses): cobra caro e o público não parece gostar tanto de literatura ou se preocupar com o absurdo da condição humana...

Apesar disso, faça-se justiça ao Les Deux Magots e ao Café de Flore num aspecto. Ambos organizam prêmios literários. Desde 1933, o Les Deux Magots elege uma obra como o destaque do ano. A premiação patrocinada pelo Café de Flore é mais recente, desde 1994, e contempla uma jovem promessa da literatura.

Não sou jovem e nunca fui promessa de espécie alguma. Contudo não posso reclamar. Estou outra vez em Paris e ganhando para isso. Despeço-me então da esquina dos cafés e caminho até o bulevar Edgar Quinet, onde avisto o cemitério de Montparnasse. Encontro Sartre e Simone de Beauvoir à direita da entrada principal. Paro em frente à singela sepultura compartilhada. Após reverenciá-la, ainda aproveito para dar um alô a outros moradores (ou descansadores) ilustres do mundo das Letras (e do morto...), como Julio Cortázar, Marguerite Duras, Samuel Beckett, Susan Sontag, Guy de Maupassant, Eugène Ionesco, Charles Baudelaire... E vou embora pensando: será que todos eles conversam entre si?


Mais um texto do baú. Saiu no Estado de S. Paulo, há dez anos. Como agora estou em Paris para alguns meses de doutorado sanduíche, e novamente fazendo a ronda dos cafés, reeditei o texto.

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