A raiva em Paris

Não foi em Paris que a raiva começou a se manifestar. A primeira vez foi em Estrasburgo, quando viu um mendigo sendo empurrado, derrubado e ameaçado de chutes por um homem branco que só não chutou o mendigo porque foi contido pelos que dividiam a mesa na calçada de um bar. O mendigo se levantou e ficou dizendo que não era cachorro, Je suis pas chien, Je suis pas chien, enquanto era afastado pelas pessoas. 

No ônibus inter municipal que tomou para voltar a Paris – aliás, um ônibus desconfortável, demorado e, sobretudo barato, bem mais barato do que a passagem de trem, e com bem mais negros do que haveria no trem –, ficou escutando rádio no celular. E ouviu que um deputado francês lamentou que os alemães, logo eles que acabaram com os judeus, agora queriam trazer esses árabes refugiados para a Europa. 

Alguns dias depois, uma colega do doutorado sanduíche lhe contou que precisou ir ao hospital e fora bem tratada. Mas não tanto como uma mulher elegante e de pele rosada. Mas tampouco fora mal tratada como um adolescente negro que estava com a perna quebrada – o caso mais grave ali – e era deixado por ultimo na triagem de atendimento. 

Passaram-se mais alguns dias, ele voltava para a residência universitária, quando entrou uma moça no ônibus. Talvez fosse negra, talvez árabe, tanto faz, o que interessa é que foi se sentar à frente de uma senhora clara e bem cuidada. A senhora devia ter uns 60 anos e estava no lugar reservado às prioridades. O lugar à frente dela também era reservado às prioridades, mas estava sobrando, vazio. Quando a moça foi se sentar nele, o ônibus balançou e ela pisou no pé da senhora, que gritou. A moça então se desculpou. A senhora então perguntou se ela não sabia ler o que estava escrito em francês no aviso acima do lugar. 

“Eu sou mais francesa do que a senhora”, respondeu a moça. 

Você é mais francesa do que eu?”, riu a senhora, que continuou a falar. O ônibus andando e a senhora: “Ah, ela é mais francesa do que eu, é o que me faltava”, e a senhora olhava os outros em busca de apoio. “Você é mais francesa do que eu? Então me responde: quem foi Joana D’Arc?” 

Nesse momento outras pessoas resmungaram. Algumas contra, outras a favor. E a senhora: “Vocês têm mais direito do que eu. Eu é que sofro preconceito por ser francesa”. 

A moça respondia que também era francesa. Que era mais francesa. E a senhora não parava. E outras pessoas, outras pessoas com jeito de franceses migrantes, passaram a responder para a senhora também. Então a senhora disse que não aguentava mais e que ia se matar. Je vais me suicider, moi

“Então vai. Se mata. Allez-y madame.” Foi o que ele e sua raiva disseram. Ou ele quis dizer.

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