O dia amanheceu tristemente lindo

O dia amanheceu tristemente lindo. Frio, mas não muito, céu azul, muito, e o sol a aureolar as coisas todas, e as coisas todas pareciam eternas. Antes do dia nascer, quando acordei com frio, rolei na cama, olhei o celular, cinco e meia da manhã e várias chamadas perdidas e várias luzes acesas de pessoas que não conseguiram dormir, no prédio em frente, o da Noruega, um de tijolos vermelhos e trepadeiras vermelhas, bonito o prédio assim, ainda mais no fim da madrugada, gosto de madrugadas, e essa, com a visão do prédio e suas janelas iluminadas, luzes na escuridão, vida, a se podia pensar que o mundo era bom, que todas as dificuldades eram recompensadas, todos os erros faziam sentido no final. 

Ligo para a família, aviso a esposa (por sorte ela estava sem internet e ainda não sabia), respondo às mensagens dos poucos amigos e saio dar uma volta. A cidade vazia e a Cidade Universitária vazia, a Cidade Universitária sem os corredores que logo cedo já se enxergam da janela, esse vazio também é bonito, sempre tristemente, a árvore de folhas amarelas do outono, as árvores de que tanto sentirei falta quando acabar o doutorado sanduíche e eu voltar ao Brasil, o céu com as nuvens que não cessam de passar, mesmo num dia azul paira a expectativa de que as nuvens apareçam de repente, paira em mim, ao menos, e também vou sentir falta desse céu em constante mutação, mas nessa manhã sinto falta mesmo é dos corredores, de alguma forma, eles representam a vida. 

Vou à padaria na dúvida, estará aberta?, sim, está, é preciso comprar pão, há fila quase até a esquina, fico olhando os poucos carros que circulam e em cada um deles imagino alguém saindo um fuzil ou uma metralhadora, não sei direito, não sei se quero saber.

Poucos carros e muitas sirenes, menos sirenes agora do que na noite anterior, claro, menos agora do que durante toda a madrugada. Me contaram, a Maria, o Pedro e a Laura, que estavam na cozinha e começaram a ouvir sirenes, sirenes e mais sirenes, a Cidade Universitária fica numa rota de ambulâncias, a Maison du Brésil fica de frente para a rua, as sirenes são comuns, mas nunca foram tantas. 

O Nícolas me relatou que estava num bar perto do Panteão e quando a notícia correu correu também o pânico, alguns clientes, os que moravam perto, correram, para casa, e quem ficou ficou fechado por horas dentro dos bar e depois havia receio de tomar o metrô e não se encontrava táxi, quase nunca se encontram táxis livres em Paris, não seria nesse dia que seria fácil.

A Carolina contou que estava na casa de uma amiga e dormiu lá, ela e mais duas abraçadas, porque tinham medo e queriam estar perto de alguém. Ficaram lá até as oito da noite do dia seguinte e resolveram dar uma volta lá pelos lados de onde tudo se passou, porque é preciso continuar, ela disse, ela e as amigas continuaram e chegaram meio que sem querer até um dos locais. A Carol estava mexendo no celular quando a chamaram e mostraram a frente destruída do bar e ela me contou que havia uma moto ou uma bicicleta meio derretida e eu pensei que também muitas esperanças derretidas. 

Eu soube dos atentados apenas de manhã. Na hora em que os ataques aconteceram eu estava dormindo, durmo com protetores de ouvido, não escutei nada. Estou bem, fisicamente bem, e os dias seguintes amanheceram lindos, tristemente lindos.

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