Sorte na inteligência, azar no amor

Para escrever Os Grandes Filósofos que Fracassaram no Amor, o escritor norte-americano Andrew Shaffer deu uma de paparazzo filosófico. Fuçou a vida de trinta e oito pensadores para mostrar que, apesar do amor incondicional à sabedoria que demonstram em seus livros, eles não foram lá muito espertos na gestão da vida amorosa. Pelo contrário. Como dizia o ateniense Sócrates (469-399 a.C.), “se conseguir uma boa esposa, vai ser feliz; se conseguir uma péssima, vai se tornar filósofo”. Lendo o livro, que é dividido em capítulos curtos e cheios de ironia, fica difícil discordar. 

O primeiro caso é o do próprio Sócrates. Até se poderia pensar que ele triunfou, pois, feio e baixinho, casou-se aos sessenta anos com Xantipa, quarenta anos mais jovem. A mulher, porém, repreendia publicamente o filósofo defensor do diálogo. Certa vez, teria despejado um balde de água suja sobre a cabeça do marido. A ranhetice de Xantipa virou lenda, tanto que, muitos séculos depois, Shakespeare lhe faria uma “homenagem”, citando-a na peça A Megera Domada

Sócrates não foi dos piores. Diante das dificuldades da vida a dois, sabia manter a calma, ao contrário de, por exemplo, Auguste Comte (1798-1857). O francês, além de conceber o sistema filosófico conhecido como positivismo, apaixonou-se pela prostituta Caroline Massin. Gastou um bom dinheiro com ela, depois ficaram um tempo sem se ver (talvez ele estivesse precisando economizar...). Quando ela se aposentou, acabaram se casando. Foi uma união tensa, para dizer o mínimo. Comte sofreu um ataque de nervos e ficou um período deitado na cama ou agachado atrás das portas da casa. Quando Caroline se aproximava, ele lhe arremessava facas. 

René Descartes (1596-1650) foi outro pensador francês que buscou ajudar a humanidade, enxertou o racionalismo na filosofia, revolucionou a matemática, mas não conseguiu resolver questões pessoais. Consta que apenas uma vez rendeu-se aos prazeres do corpo – talvez por isso uma de suas obras se chame As Paixões da Alma. A relação sexual foi aos 38 anos, com uma copeira, e ela engravidou. Arrependido, Descartes optou por nunca mais sair do celibato. Tanto que, quando se apaixonou por Elizabeth, princesa da Boêmia, nem tentou ir além da amizade. Nesse caso, a reserva cartesiana se deve também ao fato de que a nobre donzela parecia perfeita demais para ele. Conforme deixou registrado em seus escritos, Descartes tinha um fetiche por mulheres vesgas e se sentia inclinado a amá-las mais do que as não-estrábicas. 

Por que será que a mente brilhante de Friedrich Nietzsche (1844-1900) não o ajudou na vida sentimental?. Ver a foto do filósofo alemão pode ajudar a desvendar o mistério. “O que queria com aquele bigode?”, perguntam-se gerações de seguidores. Ele queria mulheres que não podia ter. A princípio, o visual não era problema. Nietzsche fazia certo sucesso com as damas, interessadas em sua filosofia, considerada “blasfema e indecente”. Mas seus encantos não funcionaram com as duas mulheres pelas quais realmente se apaixonou. A primeira recusou seu pedido de casamento, feito pelo correio, após o segundo encontro. Amava outro. A segunda, dezessete anos mais jovem (o livro deixa entender que se trata de uma mania filosófica se encantar por mulheres ou homens mais novos, porém há quem diga que não precisa ser filósofo para isso acontecer), recusou diversas propostas de Nietzsche. Um amigo em comum fez uma observação que hoje parece coerente: “não vejo como ela pode beijá-lo com aquele bigode pelo caminho...”. 

Alguns dos fracassos retratados no livro são discutíveis. O casal existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986) teve uma relação aberta, sincera e duradoura. Conheceram-se em 1929 e mantiveram o companheirismo até o fim. Estão enterrados juntos no cemitério parisiense de Montparnasse. Com o também francês Albert Camus, porém, não há discussão: seu primeiro casamento deu errado mesmo. A mulher, Simone Hié, era viciada em morfina. Camus, contrário às drogas, tentou fazer vista grossa, mas o casamento acabou quando ele descobriu que Simone fazia sexo com um médico em troca da substância. 

Nem todos os retratados são filósofos. Rand, o alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) e os russos Liev Tolstói (1828-1910) e Fiódor Dostoiévski (1821-1881) eram principalmente escritores. Aliás, o que Dostoiévski e Louis Althusser (1918-1990) têm em comum? Ambos sentiram vontade de matar a mulher. E o que os diferencia? O romancista russo apenas escreveu sobre tal desejo – em O Jogador –, enquanto o filósofo francês (outro que perdeu a virgindade depois dos 30) o realizou. Estrangulou a mulher enquanto a massageava no pescoço. Segundo ele, foi acidente. 

À leitura de Os Grandes Filósofos que Fracassaram no Amor sobrevém uma questão: por que saber da vida privada desses pensadores? Não bastaria seu legado intelectual? Talvez não haja mesmo interesse filosófico ou científico na obra. Mas não deixa de ser reconfortante saber que homens e mulheres que estudaram, refletiram e cunharam obras fundamentais, que ampliaram a compreensão da realidade e acercaram a essência do ser humano, não eram lá muito bem resolvidos da vida amorosa.


Matéria publicada na revista Bravo em janeiro de 2013.

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