Conhaque comovido no Closerie de Lilas

17h33 de uma quarta-feira, 22 de dezembro, em Paris, e a noite se achegava, pois vivíamos o segundo dia de inverno e, mesmo que o frio falhasse (espera-se até neve no Natal, mas a mínima seria de 12 graus e a máxima de 14), o escuro vinha cedo, como sempre nessa época. 

Eu acabara de sair do Closerie de Lilas, onde tomei um drinque com o Ernest Hemingway.

Explico: m How it was, Mary Welsh, a quarta e última mulher dele, conta que, quando se apaixonaram, no final de Segunda Guerra, sempre que estavam em Paris, faziam de conta que convidavam uma personalidade do passado para jantar com eles – o Flaubert, por exemplo.

Ora, então o Hemingway também pode tomar um drinque comigo, e no Closerie de Lilas, com seu interior bem aquecido onde, na década de 20, o Hem (decidi que já tenho intimidade para chamá-lo assim) sentava numa mesa de canto e escrevia em seu caderno enquanto tomava um café-crème e pensava num grande e generoso rio cheio de trutas. Eu e ele falamos sobre isso; não sobre as trutas, mas sobre a dificuldade de passar para o papel (ou para o blog) aquilo que imaginamos (Estou pensando em colocar na minha tese o que ele disse, mas não sei como citar seguindo as normas da ABNT). 

Quando terminou minha dose de conhaque – o Hemingway bebeu um quarto de vinho de Cahors –, nós nos despedimos, a princípio com um firme aperto de mão, depois com um abraço, por iniciativa dele. Então paguei (estranho, a conta veio só com o conhaque) e, uma vez na calçada, já me senti solitário e olhei para o céu e em seguida para o celular e me voltei ao céu. 

Eram exatamente 17h33, e depois de beber com o Hemingway, e voltando cheio de emoção para a residência estudantil, captei um dos possíveis sentido daquele verso do Drummond. 

Eu não devia te dizer 
mas essa lua 
mas esse conhaque 
botam a gente comovido como o diabo. 

E eu juro que se mostrava imensa e branca e espetacular, eu é que não soube focar (outra vez o conhaque).


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