Quinta-feira

Olhou o relógio do computador até que o minuto mudasse. Balançando a perna, digitou algumas linhas. Batucando com os dedos da mão direita na mesa, leu o que tinha digitado. Olhou as horas. Outra vez. Com o mouse, clicou no ícone de impressão de documento de texto e no ícone de abertura de nova janela da internet. Levantou os olhos e ficou um tempo imóvel, os olhos na direção da janela do prédio. Levantou o corpo e se pôs a caminhar até a impressora. Voltou à sua baia e navegou pela internet enquanto balançava as pernas e batucava na mesa com a mão que não estava segurando o mouse. Olhou as horas, desligou o computador. Guardou na gaveta a folha impressa. Dali tirou a carteira e uma sacola de supermercado que continha uma peça de roupa. Disse que já estava indo aos colegas de bancada e saiu rapidamente. 

No táxi, perguntou ao motorista se podia ligar o rádio. Sintonizou uma estação AM. O trânsito ficava mais lento conforme se aproximava o local. Parou de balançar a perna, desligou o rádio e pagou o táxi. Misturado à multidão, tirou a camisa social e vestiu a peça da sacola. Alguns lhe cumprimentaram. Sorriu. 

Na rampa de acesso, muitos cantavam. Cantou também. Já dentro, conseguiu um lugar bem no meio, com visão panorâmica. Cantou, e desta vez também bateu palmas. Então gritou 11 nomes. E vaiou outros onze. Olhou o relógio do celular. Esfregou os dedos, contraiu as mãos. Gritou: Uuuuuu! Pulou, e o chão tremia. Ele também, as pernas balançando, os lábios, os dentes apertados. Xingou. 

Olhou o relógio. Falou com o desconhecido ao lado. O desconhecido ofereceu-lhe um cigarro. Recusou, mas xingaram juntos quando a bandeirinha foi levantada. Noutro momento, soltou um “Puta que pariu” e bateu com as mãos fechadas na arquibancada. Repetidas vezes. 

No intervalo, comeu um sanduíche de pernil com mordidas grandes. 

Olhou o relógio. Ao seu redor, a cantoria recomeçava. Ficou quieto. Cruzou os braços e balançou as pernas. De vez em quando, soltava um xingamento. A cantoria parou, aos poucos. Outro desconhecido, de radinho, reclamou do que assistiam. Concordou e olhou o relógio do celular. Deu ordens de mudança para o cara em pé ao lado do campo. Muitos deram. Mas eram os mesmos onze do começo, e assim continuou. Olhou o relógio. Pôs a mão na cabeça. Franziu a testa. Olhou o relógio. Balançou a cabeça em ritmo mais acelerado. Mordeu os lábios com força. 

E então relaxou. Os corpos se esfregaram; misturaram-se suores. Pulou. Pulou muito. Gritando. Gritando muito. Abraçou desconhecidos. Pularam abraçados. Sorrindo, rindo, alguns chorando. 

E cantando. Cantou até o final, acompanhando os minutos pelo celular. E vibrou em definitivo quando o homem de preto articulou seu derradeiro trinado naquela noite de rouca felicidade.


Obs.: a quinta-feira do título é a de outro título – 14 de julho de 2005, quando Rogério Ceni ergueu o tricampeonato da Libertadores. Me lembrei desse dia ao me arrepiar com as palavras de Rogério em seu recente jogo de despedida: "Meu último pedido, esse não foi combinado e talvez seja o mais difícil, mas um dia vai acontecer. Queria pedir para os meus familiares, filhos: no dia em que eu morrer, por gentileza, que isso se faça, que eu seja cremado e que joguem as cinzas do meu corpo no Morumbi, para eu me lembrar para sempre de tudo que aconteceu aqui".

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