Um homem todo rugas

Era um homem todo rugas, e não eram rugas delicadas, elas se derramavam em seu rosto, como num buldogue, só que mais. E os buldogues são pequenos (principalmente os buldogues franceses), esse homem não, ele era grande, um armário. Poderia trabalhar de segurança, ou ter trabalhado, pois agora as rugas se difundiam por seu enorme corpo, o braço ainda grosso, mas cheio de dobras. 

Carregava também feições rudes. O nariz era uma sobressalente linha reta no rosto, à la grega, e devia estar gelado (como estava o meu, aliás), como estava aquele início de noite de sábado em Paris, como deviam estar as orelhas pontiagudas do homem.

E ele gritava! Os gritos ecoavam pela arquibancada do Estádio Charléty, apoiando e reclamando com voz grossa do Paris FC, um clube da segunda divisão e que enfrentava, pela Copa da França, o Boulogne-sur-Mer, um adversário de uma divisão inferior.

O homem enrugado e de feições rudes devia ser o único a gritar no público de 800 pagantes, que pareciam menos, uma vez que no estádio cabem 20 mil, e no frio o vazio parecia maior, se não fosse aquele homem surpreendente.

A rudez, porém, se limitava à aparência. Pois aos 18 minutos do primeiro tempo, quando o time visitante já estava vencendo por 3 a 0, veio o choro. Talvez ele tivesse apostado muito dinheiro no favoritismo do Paris FC, mas eu, que estava a alguns assentos vazios distante dele, prefiro pensar que as lágrimas que enxerguei - e que de alguma forma aqueceram a minha noite fria - foram fruto de uma sensibilidade exacerbada.


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