Diria que deambulei

Diria que deambulei, mas tinha sempre um rumo e respirava o ar puro das árvores que me rodeavam e seguia, ah, que panorama irresistível, um festival de jazz no quintal de casa, e o quintal era a Cidade Universitária de Paris, lugar de trajetórias, lugar internacionalista, lugar de efervescência, e havia ainda algo a escutar. Sempre há mais, um pouco além, nunca acaba! Eles se contorcem na tentativa de novas frases musicais, depois das ousadas explorações do infinito universo sonoro.

Diria que deambulei porque enquanto durou o Jazz à la Cité 5 eu jantava cedo e rápido e saía em busca de música numa das residências e como cada uma delas representava um país eu podia então conhecer um pouco do ritmo jazzístico daquele país e eu me deixava levar pensando que não havia nada melhor do que presenciar a batida sincopada-improvisada e as mudanças rápidas de tom. O jazz acontecendo.

Retorceram-se, enroscaram-se, sopraram com paixão. De vez em quando, um gemido preciso e harmonioso sugeria uma nova melodia, que algum dia poderia se transformar na única música do planeta Terra, enchendo de alegria os corações dos homens. 

Assisti a todas as apresentações que pude. Duas delas me encheram particularmente o coração de alegria. A primeira foi a do espanhol Perico Sambeat Quartet, no qual o Perico Sambeat é tudo que se espera de um saxofonista, dominando a cena em meio à cascata de notas, como se fizesse o público sentir o que ele pretende. 

A outra apresentação memorável foi do Mario Rom's Interzone, um jovem trio austríaco, cujo nome vem do livro Interzone, do beatnik William S. Burroughs. O Mario Rom é um trompetista daqueles que fazem o trompete falar, um poderoso contrabaixista e um baterista que parecia acariciar seu instrumento de trabalho.

Diria que deambulei porque mais uma vez estava a milhares de quilômetros de minha casa, vivendo num quarto barato, vivendo como se sempre fiz, de todas as maneiras, menos como todos esperavam que eu vivesse, e ouvindo jazz e me lembrando dos beats e me lembrando do Jack Keruac e suas maravilhosas descrições de concertos de jazz em On the road.

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