Duas pessoas conversando: Raiva

- Conseguiu pegar o avião então...
- Foi por muito pouco. Ainda que bem que eu tinha feito o check-in on line. Estavam chamando meu nome no alto falante. Um carro da companhia me levou até o avião, eu entrei e eles fecharam a porta.
- Mas que bom que deu certo.
- E você sabe que eu estive muito próximo de sair no braço com o motorista do ônibus.
- Nossa, por quê?
- Porque ele chegou com 15 minutos de atraso, e sabe o que ele fez? Foi comprar uma coca e uma batata frita antes de sair. Depois foi dirigindo comendo, e então ele ia muito devagar, e depois ainda começou a falar no celular. Ele falou no celular o caminho inteiro. Ele merecia apanhar.
- Mas você não fez nada, né.
- Eu não podia, tinha de correr para pegar o avião.
- Ainda bem.
- Mas se eu tivesse perdido o avião, eu não sei...
- Você precisa se controlar. Você sabe que não é assim.
- Eu não sei de nada, Neire. Eu estava super controlado. Então chegamos no aeroporto e o motorista ficou demorando para estacionar porque havia um carro na vaga do ônibus. Eu abri a porta que dá acesso à cabine do motorista. Ele tentou fechá-la e eu impedi com o pé. Aí ele disse que só depois que o ônibus parasse aquela porta podia ser aberta. Eu respondi: “Você fica falando no celular e agora fica enrolando pra estacionar. Você não tem um avião pra pegar, não é?”. Ele disse que tinha um carro na vaga do ônibus. E tinha mesmo, mas dane-se, eu falei. Abre a porta e a gente desce aqui mesmo. Ele falou: Não, minha tarefa é conduzir vocês com segurança. Aí eu disse “Conduzir com segurança o caralho. Você chegou atrasado, ficou comendo e depois falando no celular.” Então o carro saiu da vaga e ele estacionou. Eu só queria partir pra cima do motorista. Eu sabia até o que ia fazer, ia apertar o pescoço dele.
- E aí você iria preso, talvez tivesse problemas no emprego.
- Dane-se, aquele cara merecia.
- Ah, pra você tudo bem ser preso e perder o emprego.
- Mudaria alguma coisa?
- Você é que devia saber? Você acha mesmo que tanto faz?
- Sei lá.
- Você está estranho.
- Talvez.
- E você pode morrer se arrumar encrenca assim.
- Posso, é verdade.
- E pra você também tanto faz?
- Eu tenho de expressar minha raiva, já pensou nisso.
- Eu não quero que você morra, mas quem se importa com isso, não é.
- Não começa. Eu tenho de desligar que já é hora de ir pro restaurante. Só liguei porque você pediu pra avisar que eu tinha chegado bem. Não quero brigar.
- Nem eu, mas você está estranho.
- Eu sou estranho. - Mais estranho do que normalmente.
- Bom, amanhã eu te ligo.
- Ok. Bom trabalho.
- Obrigado.

(2010)

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