O crítico que morreu pela boca

Personagens: Crítico gastronômico e Dono de restaurante 
Cenário: Restaurante após o expediente da noite.
Eles estão sentados ao redor de uma mesa. 

Dono de restaurante – O senhor é um crítico bem conhecido. 
Crítico gastronômico – Nem tanto.
Dono de restaurante – Sua opinião pesa.
Crítico gastronômico – Eu represento o guia pelo qual trabalho. No fundo é um trabalho de equipe. 
Dono de restaurante – Claro, mas quem decide o que o guia vai publicar é o senhor.
Crítico gastronômico – Tudo é bastante discutido. Como eu disse, é uma equipe.
Dono de restaurante – Mas o senhor é quem faz as refeições.
Crítico gastronômico – Naturalmente, eu sou o crítico.
Dono de restaurante – Sim, claro...O que acontece é que nosso restaurante tem perdido espaço.
Crítico gastronômico – Sempre dei a vocês a merecida atenção.
Dono de restaurante – E agradecemos por isso. Porém merecimento às vezes é um conceito subjetivo.
Crítico gastronômico – Procuro fazer meus julgamentos em cima dos critérios mais objetivos possíveis.
Dono de restaurante – (Levanta-se e anda ao redor da mesa) Veja bem, não mudamos nosso esquema de funcionamento em muitos anos. Continuamos comprando os melhores ingredientes, a equipe é quase a mesma, então. Não compreendemos por nossa cotação não é a mesma no seu guia.
Crítico gastronômico – O guia não é meu.
Dono de restaurante – (procurando acuar o Crítico gastronômico) Mas as opiniões sobre os restaurantes são. E opinião é sempre pessoal. O que algumas pessoas acham merecido, outras podem não achar.
Crítico gastronômico – Sim, mas não sei o que dizer quanto a isso.
Dono de restaurante – De qualquer forma, tenho certeza de que o senhor sabe o que dizem sobre o nosso restaurante.
Crítico gastronômico – Sobre os sócios?
Dono de restaurante – Exatamente.
Crítico gastronômico – Já ouvi falar. 
Dono de restaurante – Mas não se preocupe. São boatos.
Crítico gastronômico – Não estou preocupado.
Dono de restaurante – Nem deveria. Nada nunca foi provado contra nosso grupo. Não somos bandidos, nem nos associamos a nenhum. E jamais usaríamos de nosso poder para lhe prejudicar. Ou a alguém de sua família.
Crítico gastronômico – Nunca tive dúvidas disso.
Dono de restaurante – Nós apenas não concordamos com sua opinião em relação a nossa comida, isso é tudo.
Crítico gastronômico – (Levantando-se) É um direito de vocês.
Dono de restaurante – Claro.
Crítico gastronômico – Bom, já deu a minha hora...
Dono de restaurante – Claro que já deu a sua hora...E eu também fui incumbido de lhe dizer que qualquer coisa que o senhor precise, é só nos dizer.
Crítico gastronômico – Não se preocupe. Estou bem.
Dono de restaurante – Se o senhor não estiver à vontade na cidade...podemos ajudar.
Crítico gastronômico – Não há problema. Nunca fico muito nos lugares.
Dono de restaurante – Nos sabemos. Sabemos bastante de sua vida.
Crítico gastronômico –(estendendo a mão) Tenho de ir. Obrigado pela sua atenção.
Dono de restaurante – (apertando a mão) Nós é que agradecemos pela visita.
Crítico gastronômico – (saindo) Bem, é um dever do ofício.
Dono de restaurante – Dirija com cuidado. 
Crítico gastronômico – (ainda saindo) Sempre dirijo.
Dono de restaurante – É tarde, e nossa cidade...

Luz cai enquanto Crítico gastronômico termina de sair e Dono de restaurante o observa. Luz vai fechando em cima apenas do Dono de restaurante. Barulho de acidente de carro. 

Dono de restaurante – Bem, nossa cidade anda perigosa nestes dias... (Ele dá uma risadinha, mas não muito evidente)

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