O que me recordo de um certo (ou errado) juiz Sergio Mauro

Minha carreira de jogador de futebol de salão acabou quando o horário das aulas de italiano mudou para o mesmo horário dos treinos do time de Assis. Eu tinha quatorze anos e escolhi o italiano. Pouco antes, participei de um torneio em Londrina, no Iate Clube.

Assis é uma das últimas cidades paulistas antes do Paraná. Fica a 45 minutos da fronteira e a uma hora e meia de Londrina. Aquele torneio era um dos que começavam e terminavam no mesmo dia. Os times jogavam por 20 minutos. Quem ganhasse avançava. Não foi o caso do time de Assis. Perdemos logo de cara, ainda de manhã, e já poderíamos ter pegado a estrada de volta, mas como o almoço seria grátis, resolvemos ficar.

Nunca fui enturmado de verdade com meus colegas, então saí do ginásio e fui sozinho dar uma volta sozinho pelo clube, às margens do lago Igapó. Depois, comprei o Jornal de Londrina e me sentei na pequena arquibancada de uma quadra descoberta. Tanto a quadra como a arquibancada estavam vazias e fiquei tranquilamente lendo o jornal (apesar de já não acreditar em todas as narrativas da mídia, eu gostava de ler jornal) até que fui interrompido pelo barulho de uma turma chegando na quadra. 

Pelo que entendi, eram integrantes de dois times que também tinha sido eliminados do torneio e que queriam um lugar para jogar futebol por diversão. Estavam ainda com os uniformes. Um era vermelho, outro era azul.

Eles se preparavam para jogar quando um rapazola de cabelos escuros e lábios finos e sobrancelhas grossas e olhos e orelhas pequenos, esse rapazola se apresentou: “Eu me chamo Sergio Mauro”. Se bem me recordo, era esse o seu nome. E recordo que ele tirou um apito do bolso e se ofereceu para apitar o jogo.

À primeira vista, o rapazola parecia honesto. Portava um grosso crucifixo dourado, que, se fosse de outro, como parecia ser, só uma família muito abastada poderia bancar.

Escutei o Sergio Mauro dizer que o pai era dono de um lava jato e patrocinava o time do Country Club de Maringá. Por isso o rapaz era conhecido como "o Serginho do lava a jato" ou "o juiz do lava a jato". Junto com o pai, sempre acompanhava o time do Country de Maringá. O negócio do Serginho, porém, não era jogar. Ele gostava mesmo é de ser juiz. "Deixem comigo", ele disse."Sou muito competente. Agora é do meu jeito."

Deixaram que ele apitasse. E então tudo ficou muito estranho.

Uma regra básica para um juiz de qualquer esporte. Os comentaristas esportivos sempre a repetem. Juiz não pode aparecer. Quanto mais discreto melhor. O que importa é o jogo, não o juiz. 

Só que 'o Serginho do lava a jato' não conseguia ser discreto. Ele até tentava, mas parecia que tinha sido alçado à condição de protagonista e gostava muito disso. E isso atrapalhava o jogo. 

Infelizmente, não era o maior dos problemas. 

Desde o início ele cometeu irregularidades. Notei que pouco apitava as faltas cometidas pelo time azul, enquanto em relação ao time vermelho ele chegava a inventar falta (não que o time vermelho não cometesse faltas. Cometia, em excesso, mas além delas aquele juiz mirim inventava outras, e sempre evitando enxergar as faltas do time vermelho). 

Aquilo foi me desgostando. Que fique claro, eu não torcia para nenhum dos lados. Porém a Justiça – mesmo apitando um jogo que não valia nada, era isso o que o Sergio Mauro representava: a Justiça – deve agir de modo desapaixonado. Sem pender para nenhum dos lados. Ao juiz compete julgar os fatos que lhe forem apresentados, manifestando-se nos autos com a imparcialidade que o cargo exige. Eu tinha quinze anos, e não precisa mais para saber disso. Era óbvio.

Outras pessoas também foram chegando para ver o jogo. Ao contrário de mim, começaram a tecer comentários: 

Disse uma delas: Não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção. Mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.

E um grupo do qual eu não esperava nada: Pode ser intolerável este governo. Mas é também intolerável que no afã de se encontrar um caminho para seu ocaso, desrespeite-se a lei e a Constituição. Ninguém impede um país de se tornar uma Coreia do Norte adotando práticas da Coreia do Norte. Causa preocupação, assim, a decisão do juiz de divulgar publicamente os grampos telefônicos.

E ainda outra pessoa: Quem critica o juiz é porque defende Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva? Não, você pode achar Dilma a pior presidente do mundo e Lula um bandido enganador e, ao mesmo tempo, considerar que um juiz federal deve seguir regras e não pode agir de forma política em seus casos. Porque as instituições da República, como as leis e o devido processo legal, devem sobreviver aos governantes e magistrados. 

E mais uma: Exemplifiquemos a compreensão torta: em suas delações, Delcídio diz que o PT isso, o PT aquilo, e automaticamente isso se torna “verdade”. Quando ele diz que o PSDB isso, o PSDB aquilo, o barulho e o ódio não são os mesmos, e nada disso vira “verdade” imediatamente.” E um grupo de pessoas de quem eu não esperava nada: “Em momentos de crispação nas ruas como estes que o Brasil conhece, nada mais importante que dispor de instituições sólidas e equilibradas, capazes de moderar o natural ímpeto das manifestações e oferecer respostas seguras dentro de um quadro de legalidade. Preocupam, por isso, os sinais de excesso que nos últimos dias partem do Judiciário, precisamente o Poder do qual se esperam as atitudes mais serenas e ponderadas. 

Mas o juiz não ouvia, ou fazia que não. Talvez se embriagasse com alguns elogios. E continuava, apitando cada vez mais forte:

“Falta do time de vermelho.” 
“Falta pro time azul.” 
“Pênalti pro time azul cobrar.” 
"Vocês de vermelhos, parem de reclamar ou vou expulsar todo mundo.” 

De repente, surgiu um tucano voando no céu de Londrina. E aquele certo (ou errado) Sergio Mauro: "Que coisa mais linda essa ave! O tucano simboliza o meu Brasil..." E ele quis mostrar uma foto dele com um tucano.

Por que diabos ele tem uma foto ao lado de um tucano?, pensei eu lá com meus botões, mas antes que os botões pudessem todos ser apertados, me voltei para outras pessoas ali na quadra.

Essas apontaram para o sol, dizendo que o sol era uma estrela, e nada podia ser mais belo e generoso do que uma estrela. E completaram: "O sol brilha e deve brilhar igualmente para todos, Serginho".

Um poucos ainda mantiveram o bom humor: "Melhor que o sol, é o Psol".

Eu bufei. Tucano, estrela, sol, Psol... Isso não era o mais importante. O que importava é que o Sergio Mauro se mostrou um juiz paranoico com a possibilidade de um dos times vencer.

E o pior mesmo é que ele poderia ter apitado bem. Bastava ter sido rigoroso com os dois lados. E, sobretudo, seguir as normas de um jogo de futebol de salão democrático. Dentro da Legalidade. 

Dado que sua atuação estava se tornando cada vez mais parcial e o jogo perigava não terminar, surgiu a ideia de afastá-lo. Ele então disse que ia levar a bola embora. 

“A bola é minha e se não é do meu jeito não tem jogo.” 

Mas a bola não era dele. A bola era de todos e o jogo continuou e – enquanto o juiz esperneava e dizia que iria furar a bola – eu fui um dos que ajudaram a levá-lo para longe da quadra. E não me aguentei. Me lembrando do Movimento da Legalidade, de 1961 – que se não evitou o golpe, o adiou por três anos –, eu disse: 

“Vimos para defender a Constituição. Não somos trabalhistas, não somos pessedistas, não somos udenistas, nem comunistas. Somos brasileiros. Somos democratas. Somos legalistas.” 

Ainda disse para ele que se continuasse daquele jeito ele nunca chegaria a ser um juiz de verdade. Ele fez sinal com as mãos, querendo dizer que todos esperasse para ver. E disse que ainda iríamos ouvir falar muito dele. A última coisa de que me recordo é do jovem juiz Sergio Mauro gritando e mostrando as palmas das mãos, que não eram mãos limpas de jeito nenhum.


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