Duas pessoas conversando: Cachorrada

“Tá frio. Deixa ele entrar, mãe.”
“Não. O combinado é que ele ia dormir na área, você lembra muito bem.” 
“Mas o chão da área é de lajota.” 
“É porcelanato, meu filho. Um porcelanato com aparência de pedra que custou muito caro, que escolhi sozinha e que estou ainda pagando, por sinal.” 
“É gelado a mesma coisa, mãe.” 
“É nada. É igual ao da cozinha.” 
“Então deixa ele dormir pelo menos aqui na cozinha.” 
“Do jeito que ele não toma banho faz tempo vai sujar tudo.” 
“A gente coloca um pano pra ele.” 
“Eu já coloquei um pano pra ele lá na área.” 
“Mas venta na área.” 
“Tem as muretinhas.” 
“Vai, mãe, só na cozinha.” 
“Não. Ele pode inventar de fuçar em cima do fogão, andar pela casa, fazer xixi no banheiro. Vai que ele pula na minha cama?” 
“Mas ele não está obedecendo ultimamente?” 
“Ultimamente! Mas é o conjunto que importa, e a ficha dele não é boa. E, se você for pensar, ele gosta da área, ele não queria sempre ficar perto da churrasqueira?” 
“Mãe, só nos domingos, quando tinha churrasco, a senhora bem sabe.” 
“Eu não sei de nada.” 
“E se chover?” 
 “A área é coberta,” 
“Mas não tem parede de todos os lados.” 
“Ué, pra isso ele tem a casinha dele.” 
“Mas é madeira, nem segura o vento.” 
“Ah, segura sim. E ele tem bastante pelo.” 
“Olha lá ele, mãe, comendo o resto da janta. A senhora não tem dó?” 
“Engraçado que de mim ninguém tem dó. E essa comida tá muito boa. Passei o arroz e o feijão na frigideira da carne. Ele adora. Olha lá, tá comendo com gosto.” 
“Poxa, mãe, ele tá arrependido. Deixa ele entrar.” 
“Não. Combinado é combinado.” 
“Só hoje...Por favor.” 
“Sinto muito, meu filho. Ninguém mandou o seu pai aprontar aquela cachorrada comigo. Agora ele vai viver como um cachorro por um tempo. É a minha condição. Ou isso ou o divórcio.”

(2010)

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