Autoajuda

Então um francês (estávamos em Paris e a pessoa em questão era francesa, mas podia ser de qualquer nacionalidade) me pergunta se não tenho vergonha de estar com quase quarenta anos e morando numa residência de estudantes. 

“A primeira coisa”, eu digo, “é que começar uma pergunta séria com ‘Você não tem vergonha de...’”, eu digo, “se configura um modo de tentar destruir a outra pessoa”. 
“Eu...“ 
“Porque tem uma crítica cruel embutida. Assim como frisar que tenho quase quarenta anos, quando acabei de fazer 38.” 
“Mas...” 
“E não. Acredita que não tenho vergonha de ser quem sou?” 
“Eu não quis...”
“Não chegaria à idade que tenho morando numa residência estudantil na França se não tivesse, já depois dos trinta anos, mudado a minha vida. Se não tivesse desistido de comprar um apartamento e largado a carreira de jornalista e optado pela literatura e por uma vida acadêmica. E mudei porque não estava feliz, e não tenho vergonha.” 
“Mas eu não quis dizer bem isso.” 

“Claro que não. Mas disse.”

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