O futebol como uma muleta entre os homens

Há um filme como Billy Crystal (Não me lembro o nome [mas é uma daquelas comédias meio bobas {sim, já sei, essa informação não ajuda, a maioria dos filmes com o Billy Crystal é assim}]) em que ele conta que na infância às vezes não tinha assunto com pai, então falavam de beisebol. Sempre podiam falar de beisebol. 

Foi do que eu me lembrei ao assistir O futebol, documentário que amealhou alguns prêmios mundo afora. 

"Em abril de 2013, procurei o meu pai. Fazia 20 anos que a gente não sabia nada um do outro. Pedi que ele me levasse ao Estádio do Pacaembu, onde costumávamos ver os jogos do Palmeiras quando eu era criança", diz o diretor personagem Sérgio Oksman. "Ali propus que nos encontrássemos novamente no ano seguinte e passássemos toda a Copa do Mundo juntos, do primeiro ao último jogo. Ele aceitou." 

O que acontecer a partir disso é que acompanhamos pai e filho no período que durou a Copa de 2014. Eles falam do passado, o pai sempre desconfortável, a não ser quando se fala de futebol. 

De certa forma, é um filme masculino. Não, não estou repetindo o estereótipo de que futebol é esporte apenas para homens. É que as mulheres ficam alijadas do documentário. O foco é a relação pai e filho, e as relações do pai, e o pai quase não se relaciona com mulheres. Ele tem uma empregado homem na firma. Ele tem um amigo professor. Ele conversa com porteiro e com dono do boteco. As mulheres pertencem ao passado. Pai e filho são parecidos nesse sentido. Ambos se divorciaram. Ambos foram passar um tempo em hotéis logo após o divórcio. A mãe aparece por alguns segundos num vídeo do casamento. 


Também me lembrei do Holden Caulfield (Sim, eu falo dele como se fosse alguém que existisse para além da ficção [e será que não? [Afinal, cada vez mais repito: não existe realidade, existem níveis de ficção]): “Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que tiver vontade”. 

Deve ser parecido com documentários. Queremos saber mais sobre a vida dos personagens. É o que fiz (Eu nada sabia do filme quando decidi assisti-lo e recomendo essa opção no caso de O futebol [não, não vou contar nada comprometedor aqui]). Então, google no Sérgio Oksman. Radicado na Espanha há muito tempo. Neste último filme, não queria fazer algo terapêutico (Não sei se conseguiu [não sei se deveria conseguir]). Buscava falar sobre o tédio, sobre “perder tempo" com alguém, aquilo que fazem pais e filhos e que ele nunca tinha tido. 

E o futebol? 

Ele já fez outros filmes sobre o esporte, mas acha que a bola rolando é uma chatice (Discordo, óbvio). É um pretexto para as pessoas estarem juntas, para os pais e os filhos não terem que enfrentar o abismo entre eles. Para o diretor-personagem (E nisso estamos de acordo) o futebol vem preencher o grande silêncio entre os homens, é uma muleta.

Em cena memorável, pai e filho e ao fundo o estádio durante a Copa.

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